
A porta se fechou atrás de mim e,depois dela,o silêncio. Toda a cidade já dormia, apenas o cricrilar dos grilos, involuntárias testemunhas de meus pensamentos, marcava o compasso solitário daquela noite que já ia alta, e me trazia novamente ao ponto de partida.
Buscara, não por acaso , a companhia dos amigos, os gracejos, a música alegre, o ruído. Ao lado daqueles que me partilhavam as afeições passara, quase sem perceber, uma grande e memorável noite. Mas como todas as grandes e memoráveis noites, aquela também tinha passado.
E lá estava eu, de volta às quatro paredes de meu quarto bege. Quem seria esse que me fitava do outro lado do espelho? Barba por fazer, profundas olheiras, cabelos revoltos, ainda que imóveis. Um estranho, com certeza.
Não falo com estranhos. Permaneço imóvel. Respiração em suspenso, coração na boca.
Algo naquele rosto me fazia lembrar alguém que eu já tinha sido, em um tempo em que todos os sonhos eram possíveis, em que todos os amores eram eternos...
Pensando bem, ele nem era assim tão assustador, até simpático parecia.
Depois de alguns segundos de perplexidade, certo de que aquela postura a nada me levaria, resolvi perguntar quem era aquele ser que invadira meu espelho tão deselegantemente. Pergunto uma vez. Nada. Pergunto duas. Mais silêncio. Que empáfia! Ele insistia em me ignorar, no máximo me imitava os gestos, detalhadamente.
Meus amigos sempre afirmaram que eu era estranho. Aquela situação me deixava cada vez mais convicto de que eles tinham razão. Lá estava eu, brigando com um estranho no espelho, que teimava em não responder, ainda que bradasse a bom som. Desisto. Resolvo dormir. Ele que ficasse lá, imóvel.
Afinal de contas, muitas outras noites viriam, muitos encontros ainda teria com aquele estranho até que, ao final da vida ou ao final de muitas vidas, pudesse sondar-lhe o íntimo, entender-lhe os sentimentos conflitivos, os sonhos impossíveis.
Qual tem sido a busca de todos, senão a de compreender o estranho que lhe fita do outro lado do espelho. Eu faria isso, sem dúvida...
Mas não naquela noite. A minha opção seria a da maioria dos que, absortos pelas emoções falsas, pelos prazeres e pelo ruído, simplesmente voltavam a dormir, fugindo do que encontrariam, atrás da porta.
